4.4.06

Nessa época do ano

Nessa época do ano, quando as folhas caem, as arvores ficam menos verdes,o chão fica coberto. Eu percebo uma certa penumbra nas horas mais apressadas do dia. Há uma penumbra no ar. Algo escondido atrás do frio que nos cerca.
Nessa época do ano, tudo muda, mas nada é diferente de antes. Tudo é mais triste,e mais feliz também. Me parece que o inverno tem a responsabilidade de tornar forte
o que não era fraco. E cá entre nós, sabe como fazer isso.
No inverno, gosto de me vestir, de experimentar, de tentar, de respirar. Gosto de sentir frio, só pra poder me esquentar. Tomar um chocolate quente, me enrolar numa coberta.
Inverno é bom. É triste também, porque passo invernos sozinho. Isso sempre me acontece.
O fato de se estar distante, no inverno é mais doloroso. O fato de se perder, no inverno é pior. Talvez até quem sabe, seja por isso que gosto do inverno, porque tenho lindas lembranças dessa época do ano e, quando ela chega, revivo intensamente cada uma delas.
Nessa época do ano, sinto-me como um coração partido. Como um menino, mais menino.
Lembro-me de todos os invernos que passei, todas as coisas que fiz, nessa época do ano. Mas é incrível como qualquer frio, qualquer friozinho, que me alcança, me faz sentir sozinho. Não sei quanto à vocês, mas sou assim. O frio me faz andante. Ser andante me dá frio. E eu gosto.
Certa vez, estava eu com frio, mas confiante. Certo de que tudo ia passar. Rápido como nosso inverno. Caminhei ao encontro, de mim mesmo, procurando em outro alguém. Mas não encontrei. Fui tomado por uma inferioridade, algo tão mais forte que eu. Eu queria não querer. Eu queria não poder. Mas eu podia. Eu tinha tudo pra dar certo. Isso me doeu mais.
O inverno me lembra perda, lembra solidão. Mas me faz sentir mais poeta. A dor da poesia que se perdeu. A poesia que ficou no ar é mais triste do que a poesia desejada.
Afinal o que seria da poesia se não fosse a solidão? Poderia algum poeta escrever sem estar sozinho? Sem estar distante?
Nessa época do ano, as flores caem, as folhas caem, há uma certa penumbra no ar. Mas uma coisa posso dizer: É nessa época do ano que conseguimos ver a verdadeira árvore por trás da fantasia.
"Quero que saibas que me lembro, queria até que pudesses me ver. És parte ainda do que me faz forte e, pra ser honesto, só um pouquinho infeliz."

4 comments:

Anonymous said...

Parabéns! Vc tem apurado a sua sensibilidade a cada dia. Como disse, essa me pegou em cheio. Foi curiosa a sensação q tive ao ler a sua mais recente produção literária, porque me parecia a continuação da conversa q estávamos tendo antes, porém, estranhamente, até onde me lembro, eu conduzi a conversa por aquele caminho. Sincronicidade?! Por outro lado, me vi mt bem retratada ali: dessa vez não seria o caso do verbo rasgado, ms de rasgar o véu ou virar do avesso - uma questão de afinidade ou, para contrariar as leis da física, os semelhantes se atraem. Gostei da citação ao final, não só pq tenho essa letra pendurada na geladeira, (rs), ms pq o tempo todo, desde o ínicio, me lembrava exatamente da Legião: "Me sinto tão só e dizem q a solidão até q me cai bem..." O verbo rasgado na medida certa, quase com precisão matemática, caso não estivéssemos tratando do lado poeta do ser. "Ver a verdadeira árvore por trás da fantasia" é caminhar ao encontro de si mesmo, sem procurar em outro alguém. Por isso, a contradição do que é bom e triste ao mesmo tempo. Isso, em épocas da Casa Rosa, renderia horas na varanda, noite a dentro (!). Então, queria te dizer q senti a alma transbordando de sentimentos. E eu mergulhei.

Anonymous said...

Oi Poeta.
Fazia algum tempo que não visita sua página, mas hoje resolvi vir e fiquei feliz por ter um texto novo, adorei mais ainda pelo tema ser o Inverno, melhor estação do ano.
Mas, após ler naõ sei se ainda é a melhor. É incrível como cada palavra posta forma um sentimento q eu tenho ou será o que eu senti durante a leitura?
Enfim, creio que caio mais uma vez na impossibilidade de comentar...a não ser a parte de que os poetas que são sozinhos escrevem mais belos poemas do que aqueles que estão acompanhados, mas me pergunto se é por que achamos a tristeza bonita ou se é pelo excesso de sentimento e dúvidas que esses poemas solitários levantam?
Mas existe alguém no mundo que tenha nascido para ser totalmente sozinha?
Enfim, não consigo responder. Sinto saudade de nossas conversas literárias pelo msn.
Beijos

Felipe said...

Hahaha...
Gostei. 2 comentários. A coisa tá evoluindo aqui. hehehe.
Adorei os comentários. Me sinto como alguém está alcançando os objetivos com as próprias experiências.

Bom, quanto às perguntas. Acho que os poetas solitários, tem uma necessidade de expressar o que sentem. Explorar toda e qualquer parte da solidão numa tentativa de esgotá-la. isso faz com que seus textos sejam tão carregados de sentimentos. Da parte dos leitores, acho que são influenciados a realizar exatamente a mesma busca antes feita pelo poeta, o que possibilita identificação com o texto. Ser sensível é algo muito bonito e gratificante, e as pessoas tem tendência à sensibilidade quando estão solitárias. Talvez por isso é que a solidão nos caia bem. Isso nos faz encontrar beleza na solidão (quase tristeza). Resumindo, acredito que as duas opções sejam verdadeiras (mas me pergunto se é por que achamos a tristeza bonita ou se é pelo excesso de sentimento e dúvidas que esses poemas solitários levantam?)

Se existe alguém que nasceu pra ser sozinho? essa também não sei, mas os comentários comprovam a teoria de que a solidão me cai bem...

Felipe said...

PS. Também sinto saudades das conversas literárias. É muito legal. Aliás, com as minhas duas leitoras assíduas. hahaha.

Porém na ausência do msn, postem suas idéias aqui mesmo. E até o próximo encontro no msn.

Beijão pra vcs.